DESFIAR MEMÓRIAS COMO QUEM VAI DESFOLHANDO FLORES:

SOBRE MAR ME QUER, DE MIA COUTO

                       

Fernanda Cavacas – Univ. Nova de Lisboa

 

               Quer mesmo me apaladar?

               Se quero, Dona!

               Então me desfie uma memória sua, uma verdadeira...

 

Mar Me Quer[1]

 

Edgar Poe e Baudelaire referem a unidade poética da narrativa breve e consideram que essa unidade fica a dever-se à eficácia quase hipnótica que a concentração de efeitos produz e que é interdita ao romance. Para obter esta «totalidade de efeito», é preciso elaborar um esboço rigoroso no qual todos os elementos da narrativa, mesmo desde a primeira frase, se articulam de forma concertada para tender implacavelmente para o efeito final.

 

Jean-Pierre Aubrit[2]

 

Mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada...– esta é a cantilena que aprendemos a desfiar ao mesmo tempo em que vamos despetalando a flor do malmequer à procura da confirmação da correspondência ao nosso amor adolescentemente inseguro. Neste labor de destruição pomos ansiosamente empenho pela correspondência amorosa por parte do outro pretendido e há um esforço conjugado da mão (desfolha) e do coração (“reza”). No fim restarão pétalas de uma flor desfeita e a convicção do que o futuro nos reserva.

Esta fórmula mágica permite-nos ascender à sabedoria e junta em si a palavra e o acto, na crença de que o ser humano pertence ao mundo num nexo de causalidade que pode conhecer e compreender se para isso tiver “a chave”. O importante neste caso é o número de pétalas do malmequer e a sua correspondência ao bem/mal querer. Tudo isto nos é “ensinado” sem nos darmos conta e faz parte da cultura tradicional popular.

A trama narrativa de Mar Me Quer, em forma de novela[3], tece-se em pano africano com crenças e vivências de gentes moçambicanas que vivem no litoral de Moçambique e usam o mar para lhe roubarem o peixe que os alimenta. E é com o mar que se estabelecem relações de vida e de morte, é o mar que determina esse desenrolar de (a)casos fulcrais para as personagens.

Entretanto, desde logo o título da narrativa, Mar Me Quer, nos faz desconfiar do decalque e do trocadilho em relação ao Mal-me-quer da cantilena amorosa. Decalque justificado por ser uma das manias de Luarmina[4] (uma das personagens principais) essa de desfolhar inúmeras flores ao fim de cada tarde na procura de um amor que lhe havia sido negado, enquanto vai pronunciando as palavras “mágicas”, como se descosturasse um pano nenhum[5].Trocadilho duplamente explicável: pela substituição de mal por mar, fenómeno corrente em termos linguísticos pela dificuldade africana de pronunciar a consoante r; ou, através de leitura textual mais profunda, pela importância vital do mar na novela, papel que de resto é característico de todas as obras publicadas nesta colecção: Colecção 98 Mares da Expo 98.

Zeca Perpétuo e Luarmina – as personagens principais – são pólos antagónicos dramaticamente presentes na construção da vida humana: o mar e a terra; o desejo de amar/ser amado e a impossibilidade de consumar esse amor; o passado e o presente na difícil conjunção de memórias e de sonhos; a dúvida da incompreensão ou do não reconhecimento dos símbolos e a certeza da tradição que se conhece mal mas se pressente e está presente.

Os oito capítulos em que a estória se constrói outra coisa não são senão memórias que Zeca Perpétuo desfia em troca da ternura de Luarmina, enquanto esta desfolha pétalas de malmequeres na busca do amor perdido.

Talvez esta seja a obra menos conhecida do escritor moçambicano Mia Couto[6], uma vez que foi editada pela EXPO 98, isto é, no âmbito da Exposição de Lisboa em 1998, correspondendo a uma «encomenda» feita ao escritor para que ele pudesse ser incluído numa colecção de pequenos livros subordinada à temática do mar.

Trata-se de uma estória de amor e cada capítulo dessa estória “abre” com ditos do avô Celestiano, reinvenções ou citações de provérbios, ou simplesmente a lembrança da avó sobre o último instante do velho Celestiano, reflexões filosóficas de matriz cultural, que ajudam a tecer (e a entender) a narrativa que se faz na primeira pessoa do singular pela voz de um narrador participante que é simultaneamente uma das personagens principais, Zeca Perpétuo, reformado do mar.

Depois de uma exposição breve e limitada ao essencial, em que nos são apresentadas as duas personagens principais e as condições (fortuitas) da sua convivência[7], a narrativa organiza-se à volta de um acontecimento simples: o desejo de ZECA PERPÉTUO pela vizinha LUARMINA e as suas tentativas de sedução[8]. Essas tentativas, que a maior parte das vezes se desenvolvem de forma cronológica, centram-se em algumas sequências chave, claramente articuladas que correspondem a avanços e recuos de um namoro encorajado e repelido. Entretanto, na procura de equilíbrio, as memórias de ZECA PERPÉTUO e o seu passado (que se cruza obrigatoriamente com o de AGUALBERTO SALVO-ERRO, seu pai, o amor perdido de LUARMINA), vão-se revelando imagens de um (outro) grande amor que impossibilita afinal a realização do desejo de ZECA tornando-lhe LUARMINA interdita.

Assim, um acontecimento, tão verdadeiro como surpreendente (a paixão de Zeca Perpétuo pela amante perdida no mar por seu pai), desenvolve desta forma uma concepção moderna do fantástico integrado no quotidiano (as coincidências sucedem-se e vão--nos revelando a importância dos antepassados-deuses e o seu poder no destino dos viventes) e assistimos a uma aceleração contínua na tensão dramática até ao paroxismo final: Como se a minha vida aceitasse o supremo convite e fosse saindo de mim em eterna dança com o mar[9].

Em breves linhas, propomos duas leituras analíticas desta narrativa: uma narratológica, outra psicanalítica.

De facto, parece-nos defensável a aplicação do modelo actancial de Greimas a esta novela dado que se trata de uma narrativa simples e fechada, objecto de estudo privilegiado para o formalismo, o estruturalismo ou a narratologia[10]. E por isso, o nosso ponto de partida pode ser as relações que as personagens da narrativa mantêm e que põem em jogo um conjunto de conivências e de oposições que permitem distinguir modelos e estruturas narrativas. Privilegiamos neste caso a noção de função e estabelecemos três relações, a saber:

 

a)    Entre sujeito e objecto instauram-se relações de desejo;

b)   Destinador e destinatário estão ligados por uma relação de comunicação (por exemplo, a que acontece quando o rei encarrega o herói de uma missão);

c)    A ligação entre adjuvante e oponente é de natureza pragmática e situa-se no plano da acção favorecendo ou entravando a relação do desejo ou da comunicação.

 

Em termos esquemáticos, representaríamos assim a narrativa:

 

DESTINADOR  —

OBJECTO   à

DESTINATÁRIO

AGUALBERTO SALVO-ERRO

VIDA/MORTE

ZECA PERPÉTUO

á

 

 

ADJUVANTE  à

SUJEITO

ß  OPONENTE

AMOR

O MAR 

PASSADO

(LUARMINA)    

 

(LUARMINA)

 

E poderíamos compreender as funções, organizadas de forma binária, do seguinte modo:

 

·        SUJEITO e OBJECTO

 

Neste caso, o SUJEITO é o actante MAR – um misto de entidade abstracta e ser poderoso da Natureza que assume a função de doador e ao mesmo tempo de mandador. De facto, tanto Agualberto Salvo-Erro como Zeca Perpétuo são pescadores “vivendo do mar” e “para o mar”. Z.P. afirma-se criança do mar e a humanidade de ASE estava lavada a modos de peixe[11], quando ele ressurge da tentativa falhada de salvar a moça que tombara no mar. O azul do mar “transfere-se” mesmo para os olhos de ASE, cujos poderes misteriosos – a bênção dos anzóis dos outros pescadores[12]– é também função deste sujeito de enunciação à volta do qual a acção se centra.

ASE morre “perdendo-se” no mar, como tinha perdido a sua amada, pensava ele.

L é a amada do pai, é a amada do filho; mas o mar não a quis, ela salvou--se, veio para terra e vê morrer os homens que a amam. Apesar da sua beleza não consegue ser feliz.

E é sempre o mar a determinar o desenrolar da(s) vida(s) e da(s) morte(s), como se o OBJECTO por ele cobiçado fosse, de facto, a VIDA/ a MORTE.

 

·        DESTINADOR e DESTINATÁRIO

 

Se o DESTINADOR é o atribuidor de um bem, que o DESTINATÁRIO obtém virtualmente, a primeira função cabe a ASE porque é ele quem dá a Z.P. a vida e, de certa maneira, a morte. Por um lado, ASE desempenha o papel de pai de Z.P., mas, além disso, prevê a sua morte: Você há-de morrer afogado em lençol faz conta os panos virassem ondas de água.[13] Este poder de previsão confere-lhe ainda um poder maior sobre o Z.P., DESTINATÁRIO, porque se torna, de certa forma, “árbitro” do binómio inseparável vida--morte.

A vida de Z.P. é-lhe assim “destinada” pelo pai, tal como a sua morte – desfaz-se em água e sangue – castigo (?) pela paixão, embora não consumada, por L. (que lhe é interdita).

Entretanto, este DESTINADOR ainda incumbe o DESTINATÁRIO do cumprimento de uma tarefa: Eu quero que você vá lá [ao Fundo do China, no meio do mar, onde a moça tombara], cada semana vá lá. E leve comida e água de beber. Deixe isso no fundo.[14] Esta promessa – incumprida – vai selar um pacto entre estes dois actantes e também centra a acção no mar.

 

·        ADJUVANTE E OPONENTE

 

Luarmina concentra em si a dicotomia do ADJUVANTE e do OPONENTE:

É ela quem ajuda o MAR (SUJEITO) fazendo avançar a sua procura ou favorecendo a sua comunicação com a VIDA e com a MORTE (OBJECTO), na medida em que o amor que ela traz à vida de ASE o faz trocar tudo pela lembrança dela que se irremediara nos fundos do mar, constituindo a única razão de viver e a derradeira vontade de morrer.

Mas o papel inverso também é dela – o seu passado, a morte que o mar lhe negou, o enamoramento que dela faz depender dois homens, pai e filho, e a necessidade que ela tem de ouvir as memórias de Z.P. que de alguma forma a fazem reviver aquele amor passado e tornam interdita a consumação do amor presente – são manifestações dos obstáculos que ao MAR se deparam para a realização do desejo ou para a comunicação com o OBJECTO.

Esta dicotomia, que envolve avanços e recuos da acção e prolonga a vida e antecipa a morte, está muito bem sintetizada no cantochão de Luarmina que revela a sua dupla pertença e o contraditório do seu querer: Mar me quer / Bem me quer...

Esta ladainha simboliza, de forma ímpar, a dicotomia que Luarmina encerra e é, apesar de tudo, um sinal de esperança perante a inevitabilidade da morte: o amor.

Com uma leitura psicanalítica procuramos “desmascarar” as personagens e examinar o papel que elas desempenham inconscientemente, embora à luz do contexto em que elas se movem. Os estudos de Freud e de Bettelheim ultrapassam a descodificação. Mostram que o conto tem sempre a mesma função: ensinar-nos a aceitar a evidência, i.é, a integrar o princípio da realidade.

Neste caso, ASE é pai de Z.P. e pede-lhe uma última vontade, antes de morrer: Eu quero que você vá lá [Ao Fundo do China, no meio do mar], cada semana vá lá. E leve comida e água de beber. Deixe isso no fundo. Faça isso da minha parte.[15] Z.P. não cumpre o prometido e é castigado: vai morrer (como, de resto, o pai já tinha previsto). Há aqui uma transposição do destino humano, segundo a religião cristã e uma situação paralela à vida do Homem que Deus terá criado, também Ele pai, também Ele “sabedor” de que o filho morrerá.

Mas há – não nos esqueçamos nunca do contexto cultural moçambicano em presença – a grande importância dos antepassados[16] e, sobretudo, o poder que os familiares mortos têm na vida dos seus descendentes. Os antepassados tornam-se eles mesmo deuses (ou intermediários privilegiados entre os vivos e os deuses), mas são vingativos e não poupam ninguém à sua cólera se não lhe são prestadas as devidas cerimónias e obediências.

A desobediência de Z.P. ao último desejo de seu pai é, assim, na nossa perspectiva, mais catalisadora de desgraças do que propriamente o facto de Luarmina lhe ser interdita por ser a mulher do pai: complexo de Édipo uma vez mais vivido no desejo (in)explicável pela mulher proibida. E é por isso que o “final é feliz”, desenlace talvez inesperado nesta estória: Z.P. vai poder morrer em paz, porque L. lhe desvenda a sua identidade e ele fica a saber que, de certa forma, cumpriu a tarefa de que o pai o incumbira, i.é, tinha cuidado da mulher amada segundo o desejo do pai: Você tratou de mim, todas essas conversas, todas as vezes que me visitou...[17] Embora sem saber, Z.P. cumprira o prometido, e se a doença permanecia (Você, Luarmina, é minha doença.[18]), pelo menos resta a esperança de ter sido / ser / vir a ser correspondido no amor.

De facto, a estória acaba com um regresso prometido e uma cura afiançada que faz Z.P. ter esperança e adormecer escutando o mar: Eu prometo, Zeca, eu regresso depois, à noite, para curar de vez essa doença.[19] Não é esta a mais promissora de todas as palavras de amor, que esperamos da vida, para o regresso ao elemento líquido, placentário, que nos alimentou e protegeu, garantia de eternidade de que todos carecemos para viver e morrer melhor?

Entretanto, a nossa leitura da novela Mar Me Quer, onde o recurso sistemático ao presente narrativo contribuiu para imprimir uma maior urgência ao texto, não pode deixar de incluir alguns dos aspectos formais característicos do estilo da ficção coutista. Assim, é de referir:

 

·      A forma oralizante do discurso: o ritmo da frase, a colocação das palavras, as pausas, a respiração do texto, a utilização constante de máximas ou sentenças;

 

·      A organização sintáctica que serve o texto;

 

·      Os variados recursos estilísticos que profusamente emprestam ao texto polissemias e ilustram situações que vão do mágico, mítico e simbólico mais incomum ao comezinho e ao quotidiano;

 

·      O léxico criado sempre a partir da língua portuguesa de Moçambique e de outras línguas que com ela coabitam o espaço moçambicano.

 

Este discurso novo – sempre tão referido a propósito da obra de Mia Couto – tem vindo a ser analisado como resultado de inúmeros factores. Apenas como pistas de reflexão, apontaremos algumas razões que nos parecem poder contribuir para justificar (se a criatividade disso necessita!) um uso tão inovador da língua portuguesa que se inscreve mesmo como precursor na história das literaturas africanas em língua portuguesa. São elas:

 

·      A influência de outras línguas e, nomeadamente, a captação do uso de uma língua veicular no seio de comunidades que, ao usarem essa língua com um domínio restrito, a alteram no sentido de ela lhes servir melhor.

·      Um grande domínio da língua portuguesa e a procura de traduzir realidades que vêm correspondendo a línguas predominantemente orais, através de uma língua europeia marcada pela escrita e pela necessidade de síntese e de “afunilamento” de significados.

·      Uma vivência sentida e pressentida de aspectos ontológicos e sociológicos de comunidades moçambicanas expressa inclusive em similares processos vocabulares aglutinadores.

·      O carácter lúdico – criação de artista que junta cores e formas na paleta do retrato, sem verosimilhança aparente com a realidade retratada, e em que, no experimentalismo da escolha das palavras, o som desempenha um papel importante e os mecanismos gramaticais servem muitas vezes de suporte para a criação.

 

De sublinhar que Mia Couto não inventa nunca a partir do nada[20] e que o seu ponto de partida é sempre a língua portuguesa, que ele conhece muito bem. E embora não “copie” o que escreve da(s) realidade(s) linguística(s) moçambicana(s), a sua criação artística, longe de ser uma pura invenção de quem arbitrariamente codifica a realidade, é o resultado da aplicação de regras que a língua segue.

 

No campo lexical, por exemplo, as palavras

·      ou alteram significados ou categorias habituais e nos remetem para outras realidades;

·      ou resultam da formação inovadora a partir de elementos conhecidos para juntos procurarem significados compósitos e inexistentes até então;

·      ou substituem outras palavras em expressões de sentido comum para lhes alargarem ou mudarem o sentido;

·      ou brincam com a proximidade do oral e a sua transcrição directa.

 

E vamos finalizar com o dito do avô Celestiano, reinventando um velho provérbio macua, com que Mia Couto abre esta novela, e que é mais um exemplo da voz do povo moçambicano e da sua cultura em construção: Deus é assunto delicado de pensar, faz conta um ovo: se apertamos com força parte-se, se não seguramos bem cai. (Primeiro Capítulo)[21].



[1] Mia COUTO. 1997. Mar Me Quer [M], EXPO 98, Colecção 98 Mares, n.º 75, Lisboa: 31.

[2] Jean-Pierre AUBRIT. 1997. Le conte et la nouvelle, Armand Colin, Paris: 72-73.

[3] Nos países que acabam de obter a sua independência, assiste-se a um nascimento da novela que se substitui aos géneros tradicionais: contos folclóricos, lendas, literatura palaciana, e propõe-se produzir uma literatura comprometida. (Dictionnaire des genres et notions littéraires. 1997, Albin Michel, Paris: 502).

[4] Este era o cantochão de Luarmina, o infindo rameramejar dela. Todos fins de tarde, a mulata fica sentada, num degrau da varanda e vai desfolhando infinitas flores. Ao fim de um tempo, todo o pátio está forrado a pétalas, o chão espantado a mil cores. (M 21)

[5] (M 20)

[6] … sou um escritor africano, branco e de língua portuguesa. Porque o idioma estabelece o meu território preferencial de mestiçagem, o lugar de reinvenção de mim. Necessito inscrever na língua do meu lado português a marca da minha individualidade africana. Necessito tecer um tecido africano e só o sei fazer usando panos e linhas europeias. O gesto de bordar me ensina que estou inventando uma outra ordem e nessa ordem esses valores iniciais de nacionalidade já pouco importam. (Mia Couto, “Auto-retratos”, in Jornal de Letras, 1997-10-08).

[7] Ela [a gorda mulata, Luarmina] chegou ao bairro depois da morte de meus pais, quando herdei a velha casa da família. Nessa altura, eu ainda pescava em longas viagens, semanas de ausência nos bancos de Sofala. Nem notava a existência de Luarmina. (M 11).

[8] ... dei por mim a encostar desejos na vizinha. [...] Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência, beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela.(M 13)

[9] (M 87).

[10] Christophe CARLIER.1998. La clef des contes, Ellipses/ Édition Marketing S.A., Paris:76-79.

[11] (M 37-8)

[12] Porque meu velhote abençoava os anzóis. Os pescadores faziam fila e ele atendia cada um à sua vez. Fazia-se silêncio, enquanto ele fechava os olhos. Agualberto Salvo-Erro aguardava vozes que lhe haveriam de desembocar. [...] Até que Agualberto fazia subir a mão e agitava os dedos como se chamasse invisibilidades. Desembrulhava um velho pacote de cigarro e dele tirava uns pós com parentesco de tabaco. [...] Os pós eram lançados sobre o anzol e a sorte se enroscava no anzol. Outras vezes ele anexava ao isco as variadíssimas coisas: pedaços de espelho, cartas, búzios. Tudo aquilo seguia, mar abaixo, a convocar as mais boas sortes. (M 52-3)

[13] (M 58).

[14] (M 58).

[15] (M 58)

[16] Os xikwembu [ Todo o homem que deixou esta vida terrestre tornou-se um xikwuembu, um deus.] são os senhores de todas as coisas: terra, culturas, árvores, chuva, adultos, crianças e até os valoyi ou deitadores de sortes! São omnipresentes sobre todas estas pessoas e todos estes objectos. [...] Os deuses podem abençoar. Se a árvore se carrega de frutos, é porque eles a fizeram crescer; se as colheitas são abundantes, é porque eles forçaram os deitadores de sortes a multiplicar as sementes ou os impediram de as destruir [...] Mas podem, também, maldizer e fazerem cair sobre os seus descendentes desgraças sem conta. Se a chuva falta, a causa é a cólera deles. Se um tronco cai sobre alguém, foram eles que o dirigiram na queda. Se uma criança tem febre e delira, são eles que estão nela, atormentando-lhe a alma. (Henri A. JUNOD. 1996. Usos e Costumes dos Bantu – Tomo 2, Arquivo Histórico de Moçambique, Maputo: 330); (Os deuses) desejam que se pense neles, que se lhes façam oferendas. Parece que não têm necessidade de coisa nenhuma, pois que vivem na abundância; no entanto, exigem pontual observância dos deveres que os seus descendentes têm para com eles. Querem kuluma, comer as primícias, e ter o seu quinhão de folhas de tabaco e de tabaco pilado. São ciumentos e vingam-se quando os esquecem. O único pecado que, a seus olhos, parece digno de punição, é o de se descuidarem deles. (Henri A. JUNOD. 1996. Usos e Costumes dos Bantu – Tomo 2, Arquivo Histórico de Moçambique, Maputo: 364-5); Os mortos conservam inúmeros atributos próprios dos vivos. Eles continuam interessados pela vida dos seus e podem ajudá-los. Por outro lado, os mortos são dotados de enorme susceptibilidade e, ao menor melindre, são capazes de se vingar. Por isso, os vivos temem-nos, chegando a um temor invencível. (Jorge DIAS e Margot DIAS. 1970. Os Macondes de Moçambique – III. Vida Social e Ritual, J.I.U., Lisboa: 388)

[17] (M 84).

[18] (M 84).

[19] (M 84).

[20] … acho que palavra descobre-se, não se inventa (COUTO, Mia. 1991,Cronicando, 2ª edição revista e aumentada , Editorial Caminho, Lisboa: 167)

[21] (M 7).